Saberes docentes, precisamos ouvi-los

Como professor atuante ou em formação, você sabe que a área educacional é repleta de pesquisas das mais variadas temáticas e abordagens. Muitas vezes, fica até difícil acompanhar, não acha? Além de boa parte delas sequer ter implicação em nosso trabalho, pois não consideram nossa voz e saberes que, sim, precisam ser ouvidos.

Segundo Charlot (PIMENTA; GHEDIN, 2012), as análises e considerações das investigações feitas na universidade pouco chegam ao cotidiano escolar. Isto não se deve à falta de interesse docente em articular teoria e prática, promovendo práxis (ação, reflexão e ação).

Na verdade, o problema está em boa parte destas pesquisas falam apenas a outros pesquisadores, não contribuindo, efetivamente, para a atribuição de sentido às necessidades dos professores, bem como o oferecimento de perspectivas. Nossa voz e saberes são desconsiderados.

Dia desses, em uma momento de estudo na escola onde trabalho, lemos um texto da Nova Escola para embasar nossas discussões acerca da relação entre a família e a escola. Quando chegamos nos tópicos referentes às propostas de soluções para os problemas de entendimento entre as famílias e as instituições escolares, não foram poucos os colegas que assertivamente disseram:

“Traz esse autor pra cá. Quero ver se ele não muda de ideia num instante”. 

Tardif (2014, p. 115), também contribui com este debate:

O perigo que ameaça a pesquisa pedagógica e, de maneira mais ampla, toda a pesquisa na área da educação, é o da abstração: essas pesquisas se baseiam com demasiada frequência em abstrações, sem levar em consideração coisas tão simples, mas tão fundamentais, quanto o tempo de trabalho, o número de alunos, a matéria a ser dada e sua natureza, os recursos disponíveis, os condicionantes presentes, as relações com os pares e com os professores especialistas, os saberes dos agentes, o controle da administração escolar, etc.

Para além das pesquisas que apenas teorizam, deparamo-nos com investigações que, seguindo a linha neotecnista, normatizam e prescrevem o trabalho do professor. Elas não concebem que nós mesmos possamos planejar, executar, avaliar e reelaborar nossas práticas, pensando, assim, o NOSSO fazer e publicizando nossos saberes.

E como deve ser a relação entre as pesquisas educacionais e os saberes docentes?

o trabalho dos professores deve ser entendido a partir de sérias contextualizações

As pesquisas científicas na área da educação devem intentar compreender a escola. Para apreender a natureza do trabalho dos professores, a docência deve ser descrita e interpretada a partir das condições, condicionantes e recursos que influenciam e determinam nossas ações cotidianas (TARDIF, 2014).

Um dos possíveis caminhos rumo à construção de novas pesquisas passa pela contextualização da profissão ou ofício docente. Isso mesmo, você sabia que para muitos pesquisadores os professores não formam uma categoria profissional?

Para que um ofício possa ser considerado uma profissão, algumas características precisam estar presentes (LEMOSSE, 1989, apud PERRENOUD, 2001): intelectualiade; erudição; exercício prático e coesão interna.

A atividade de ensino é considerada, por autores como Etzioni (1969 apud PERRENOUD, 2001), apenas uma semiprofissão.  Para ele, nossos saberes não satisfazem de forma plena aos seus critérios. Enquanto semiprofissionais, não temos prestígios como autonomia, renda satisfatória, poder e status.

Por isso, se faz urgente a maior participação dos professores nas pesquisas que têm por objetivo o seu campo de atuação. Para isso, precisamos estudar, planejar, executar e avaliar bem nossas intervenções, além de registrá-las e divulgá-las. Nossa voz e saberes precisam ser ouvidos!

Acadêmicos e técnicos podem ter o conhecimento sobre educação, o que também temos, mas apenas nós, que atuamos fazendo, temos saberes múltiplos: dos conteúdos a serem trabalhados; curriculares; pedagógicos; da experiência, etc.

O que você tem a nos dizer sobre o tema do artigo? Deixe sua contribuição nos comentários. Precisamos lhe ouvir!

Referências

PERRENOUD, Philippe. Ensinar: agir na urgência, decidir na incerteza. Porto Alegre: Artmed, 2001.

PIMENTA, Selma Garrido; GHEDIN, Evandro (org.). Professor reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2012).

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.

Fonte das imagens

curiosidadecientifica.com

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